Faria Canto Magico & Sonhos

Sala do poeta e amigo

Eugénio de Sá

 

Quilhas no lodo

Eugénio de Sá

 

Quilhas sedentas d'água e tombadas

Naufragadas nos lodos de uma ria

São bolores de uma mágoa assaz sombria

Marinhagens de sonhos desgraçadas

 

Porque é preciso navegar-se a vida

Acordar nas bravuras de uma proa erguida

E anoitecer num fado que nos dê guarida

 

Viver a nostalgia desses horizontes

Onde a glória do sol emerge lentamente

Saber saborear as cores do seu poente

 

É feito disto o sonho português

De doiradas areias e um mar de navegantes

E não de lodos vis, agonizantes

Em negação a tudo o que se fez

 

A Portugal

Agosto de 2006

 

Que pena me dás Lisboa

(Eugénio de Sá)

 

Tristonha esta Lisboa que hora vejo

brotar de toda a crise que se arrasta

e cuja sorte se tornou madrasta

pintando a tons cinzentos o meu Tejo

 

É ponto de passagem, não de estar

a teia pombalina que é mais rasa

onde outrora nos víamos em casa

hoje erramos por ela, sem gostar

 

E p'las orgulhosas avenidas

em que os olhos paravam deleitados

quedamo-nos agora de pasmados

à vista das pobrezas exibidas

 

Já nem me atrevo a subir ao Chiado

por não querer mais desgostos no olhar

e fico no Rossio a relembrar

um tempo de Lisboa, requintado

Portugal

2006

Pregoeiro da nostalgia

Eugénio de Sá

 

Rua da Madalena, não posso esquecer

As alegres manhãs p'la calçada acima

E ouvir o pregão: “viva da costa”

Na esganiçada voz de uma varina

Havia lá melhor? – Nem santola, ou lagosta!

Nem pescada do alto, que se vendida à posta

era ver as freguesas, lestas, a correr

 

Que vaga nostalgia esse tempo me traz

D'outro pregão, famoso, de Lisboa:

“Fava rica, quem quer almoçar”

E todos sabiam que era coisa boa

São Mamede saía a licitar

As moedas na mão, esperteza no palrar

Alguma discussão… e favas ao cabaz

 

Amanhecia o dia no bairro do Castelo

Bicicleta a reboque, mão no guiador;

“Amola tesouras e navalhas”

modulação de gaita, pregão d'amolador

Consertava-se tudo, as bocas e as falhas

E Lisboa era isto, e os corvos, e as gralhas…

E comiam-se, à noite, iscas no Cotovelo

 

No Rossio, lusco-fusco, tarde entrada;

"Olha o'Popular, trás a bola", o ardina apregoava

e o Carlos dos jornais, um poeta do povo

dizia os seus poemas, sacola pendurada

habituado ao peso desde que era novo

sempre os jornais vendia a quem chegava

ou a linha de Sintra, à pressa, demandava

 

chegavam precoces os frios outonais

ouvia-se o pregão envolto em fumarada;

"Há castanhas assadas, estaladinhas"

E aquecia-se a vida encasacada

cansada, mas saudosa das boas castanhinhas

porque esta vida é um quase nada

e aquele calor animava as alminhas

Portugal

2006

Que mundo é este?

Eugénio de Sá

 

Vil este quadro que nos é patente

De um mundo onde devia a evolução

Inferir das mais razões dando razão

Aos que se enfraquecem desesperados

Cujos olhos sem vida tristes e parados

Já não ousam olhar ninguém de frente

 

Vil toda essa covarde omnipotência

Sobre quem nunca pode contrapor

Mas que continua a ser justo credor

De um pouco de carinho, de atenção

Em vez de receber um brutal não

Quando se humilha à míngua de indulgência

 

Vil toda a tirania do poder maior

Num mundo tão carente e esfomeado

Mas são ferozes as regras do mercado

Que não hesitam em tudo explorar

Porque se o lucro der o que tiver de dar

Que importa ignorar qualquer pudor

 

Que mundo é este onde a morte campea

Sem que valor lhe dê quem tem de dar

Mas que o tirano não hesita armar

P´ro censurar depois publicamente

Fazendo jus em ar eloquente

Ao cínico Pilatos, cujo estilo enleia

Portugal

Outubro 2006

Teimoso Coração

Eugénio de Sá

 

Vá lá a gente explicar-se

ao tonto do coração

que entre sonhos de paixão

passa a vida a emocionar-se

 

Vá lá a gente dizer-lhe

que no meio dos desvarios

brotam fluxos d'outros rios

que podem mais aprazer-lhe

 

Vá lá a gente convencê-lo

que em vez de estéreis desmandos

há venturas e quejandos

que podem enternecê-lo

 

Vá lá a gente contar-lhe

que partilhar afeição

É a maior compensação

que podemos entregar-lhe

 

Vá lá a gente aquecê-lo

se quando treme de dor

prefere o frio desamor

ao calor de um são desvelo

Portugal

2006

A Memória do Sonho

Eugénio de Sá

 

Quando é pousada a pena de um poeta

P'ra sempre, na sua mesa de trabalho

E se lhe apaga a musa predilecta

Como se fina a lenha no borralho

Então do sonho só fica a memória

A lembrar a nobreza do asceta

 

E em sagração o espírito lhe ascende

A paraísos próximos de Deus

Porque o dom do poeta vem dos céus

 

Fica mais pobre o mundo sem poesia

Sem o fluir do lírico pensar

Desse poeta que agora em estesia

Outras musas divinas vai cantar

Portugal

2006

Outonos de Portugal

Eugénio de Sá

 

Em Portugal, os Outonos

A oiro são decorados

Nas encostas as videiras

Adornam sob os pesados

Cachos de uvas prazenteiras

P´los alvores do vinho novo

 

Em Portugal, nos Outonos

Há folhas mortas no chão

E nas áleas de ciprestes

Recolhem-se os que se vão

Surge no mar o primeiro vagalhão

Enquanto as praias se enchem

…de abandonos

Portugal

2006

Pó de Estrelas

Eugénio de Sá

 

Noite límpida esta que fito deslumbrado

E as constelações enfeitam-me o olhar

Cassiopeia à direita, Scorpio d'outro lado

Vejo o Cruzeiro do Sul ali mesmo a brilhar

 

Qual visão sobreposta foca-se a tua imagem

Nas estrelas que apontam o teu doce caminho

Desse lado do mundo onde tu és miragem

Neste lado da vida onde ainda há carinho

 

Procuro nas estrelas uma resposta à dor

Pergunto a Sirius, questiono Alfa Centauri

Mas não leio sinais que me tragam o amor

Nem ouço ecos no céu que me falem de ti

 

Só o pó das estrelas de uma estrela cadente

Pode testemunhar esta tristeza

Que encontra fundamento no silêncio eloquente

Negando-me aos sentidos sentir tanta beleza

Portugal

2006

" Com mãos se faz a paz a guerra

Com as mãos tudo se faz e se desfaz"

(Manuel Alegre)

Com mãos

Eugénio de Sá

 

Com mãos faz-se expressão

Com mãos se faz o pão que Deus nos dá

Com mãos se pede a Ele p'lo nosso irmão

Com mãos se reivindica o que a vida não dá

 

E se é com mãos que se bate em alguém

É com as mesmas mãos que se pede perdão

E é pena que as mãos sejam também

Culpadas se as lavamos, negando a redenção

 

Com mãos se renega o amor que nos dão

Com mãos se abraça, com mãos se acaricia

Com mãos se trai quem já nos deu a mão

Com mãos se busca o pão de cada dia

 

E se é com mãos que se limpam os olhos

Se as lágrimas de dor ganham o apogeu

Também é com as mãos que se removem escolhos

Propiciando o sonho a quem já o perdeu

Portugal

2005

http://www.poemar.com/EugenioDeSa.htm