Sala do poeta e amigo
José Antonio Jacob

Velho órfão
(José Antonio Jacob)
Desde cedo esperei o que não vinha
E a minha vida foi perdendo o prazo:
Fui vendo a minha sombra mais sozinha
E o meu destino cada vez mais raso.
E, enquanto, andei do quarto até a cozinha,
Pesou-me os passos, e causou-me atraso,
Desfolharam-se os dias na folhinha
E o tempo foi morrendo em meu ocaso.
Súbitos longos anos tão estreitos,
Sinto vê-los perdidos sem proveitos,
E sem proveitos não me presto mais...
Eu sou aquele velho desolado,
Que vive a andar atrás do seu passado,
Como a criança órfã que procura os pais.
José Antonio Jacob
Casinha de Boneca
(José Antonio Jacob)
Um dia ela guardou os seus segredos,
Porque sentiu que o amor ao longe vinha,
Trancou no quarto todos seus brinquedos
E o sonho da boneca e da casinha.
E foi buscar aquilo que não tinha
No alegre faz-de-conta dos seus dedos,
Contou tristezas e chorou sozinha,
Depois sorriu das mágoas e dos medos.
Passou o tempo e ela seguiu a sina,
E assim, com a decência que ilumina,
Também andou por aonde o mal caminha...
Quanta ternura tem essa velhinha,
Que fica no seu quarto de menina
Brincando de boneca e de casinha!
José Antonio Jacob
Crença
(José Antonio Jacob)
Quando firmava o azul e o sol abria
Ao dia a sua bem-aventurança
O homem bom repartia à vizinhança
Toda espécie de estima que sentia.
E ele acordava cheio de esperança
De vir o dia - após um novo dia -
Só para dar-lhe apreço e cortesia
Na sua ingênua crença de confiança...
Depois curvava a fé que lhe convinha
À soleira da porta, de tardinha,
E fiava as horas, crédulo a sorrir...
E a noite o recolhia nesse afã
De estar sempre esperando esse Amanhã
E sempre esse Amanhã tardando a vir...
José Antonio Jacob
Esperança Morta
(José Antonio Jacob)
Minha ruazinha triste está tão doente
E as casas de janelas apagadas,
O meu jardim morreu na minha frente
E ninguém passa mais nessas calçadas.
Ah, ruazinha... (quem a conhece sente)
Suas cores estão mais desbotadas!...
E para mais piorar a dor na gente
As nuvens lá no céu estão paradas.
Não posso mais sonhar sua lembrança
E ver, lá fora, pela minha porta,
Passar alguém feliz feito uma criança.
Ao acordar eu vejo, desolado,
Que é uma esperança - que amanhece morta -
Que fica o dia inteiro do meu lado...
José Antonio Jacob
Quanto Tempo nos Resta?
(José Antonio Jacob)
Nossa vida é uma história mal contada,
Uma vaga novela incompreendida...
Para alguns é um feliz conto de fada,
Para outros uma lenda indefinida...
Vivemos, de alvorada em alvorada,
(Que tempo ainda nos resta nessa vida?)
A dar sorrisos largos na chegada
E a lamentar a perda na partida.
Que bom matar o tempo numa rede,
Se ele nos desse a viva eternidade
De um quadro pendurado na parede...
E, enquanto a vida passa e o tempo avança,
Quanta tristeza vai numa saudade,
Quanta alegria vem numa esperança!
José Antonio Jacob
Desenho
(José Antonio Jacob)
A nuvenzinha que no céu passou,
Lépida e alegre, sem nenhum rumor,
Num pé-de-vento foi e não voltou:
Era uma folha num jardim sem flor...
Virando a folha um sol no céu brilhou
E fez surgir um dia de esplendor,
Veio uma sombra e o dia se apagou:
Era um desenho num papel sem cor...
Por que será que meu rabisco leve,
Que traço em suavidade colorida,
Esvoaça fácil feito um sonho breve?
E tudo que eu amei foi despedida...
E por que o meu destino não escreve
Uma história feliz na minha vida?
José Antonio Jacob
Despercebimento
(José Antonio Jacob)
Dentro dos seus sapatos desbotados
Ele saiu de casa e foi distante,
E foi além da conta, andou bastante,
Até achar caminhos nunca achados.
Esse homem, descontente e itinerante,
- Não disse adeus quando se foi aos lados -
Deixou atrás de si rostos molhados
E colocou a Sorte vida adiante.
Depois voltou trazendo na memória
O que o Mundo não lhe pode servir,
E ao retornar ao lar: - Ó Sorte inglória!
Nenhum sorriso amado viu sorrir...
Chamou, cantou, chorou, contou história,
Mas ninguém quis saber e nem ouvir
. José Antonio Jacob
Roseiras Dolorosas
(José Antonio Jacob)
Estou sozinho em meu jardim sem cores
E, ainda que eu tenha mágoas bem guardadas,
Cuido dessas roseiras desmaiadas
Que em meu canteiro nunca abriram flores.
Tais quais receosas almas delicadas
Elas se encolhem sobre seus temores
E abortam seus rebentos nas ramadas,
Enquanto vão morrendo em suas dores...
Quantas almas, que por serem assim,
Como essas tristes plantas no jardim,
Calam-se a olhar o nada tão descrentes...
Feito as minhas roseiras dolorosas
Que só olham para a vida, indiferentes,
E não me dão espinhos e nem rosas.
José Antonio Jacob
Jardim sem Flores
(José Antonio Jacob)
Para acalmar a febre do meu rosto
Encosto a fronte na vidraça fria,
E fico a olhar a rua tão vazia,
Pois tudo está sem graça no sol-posto.
Lá fora o vento passa e empurra o dia
Que vai embora como o rei deposto,
Se para alguns deixou muita alegria
A tantos outros só deixou desgosto.
E, enquanto a tarde inclina-se a este poente,
Eu desço para o meu jardim sem cores
Que está (como eu estou) triste e descrente.
E juntos soluçamos nossas dores:
Eu por estar magoado, velho e doente,
E o meu jardim por ter perdido as flores.
José Antonio Jacob
O Beijo de Jesus
(José Antonio Jacob)
Eu era criança, mas já percebia,
O pouco pão que havia em nossa mesa
E a aparência acanhada da pobreza
Que tinha a nossa casa tão vazia.
De noite, antes do sono, uma certeza:
A minha mãe rezava a Ave-Maria!
E ao terminar a prece eu sempre via
No seu olhar uma esperança acesa.
Após a reza desligava a luz,
Beijava o crucifixo, e a fé era tanta
Que adormecia perto de Jesus.
Depois que ela dormia (isso que encanta)
Nosso Senhor descia ali da cruz
Para beijar a sua face santa..
José Antonio Jacob .

O QUE VAI SER DE NÓS POR ESTA DOR...
O que vai ser de nós por esta dor
Que a vida colocou num céu distante,
Eu te espero e te quero como for
E o teu desejo aumenta a cada instante...
Eu sou o teu espinho, minha flor!
Deito-me em ti de noite como amante
E amanheço sozinho... e sem amor...
E agora o que vai ser daqui por diante?
Adoeci de febre por saber
Do teu tremor que sinto a me querer,
Vem louca! Vem então me dar teus ais!...
O amor é tentação, minha querida,
E essa perturbação vale uma vida,
Sofrer assim calada é sofrer mais!
José Antonio Jacob

FORÇA MISTERIOSA
O que acontece em mim quando a ti escrevo
Não sei dizer-te amor: sinto que não!
E tu achas que não posso e que não devo
Escrever-te tais versos de paixão.
É tão difícil amar uma ilusão,
É por isto que te amar eu me atrevo!
E te amo mais, e mais o teu enlevo
Encanta-me a pobre alma e o coração.
O que será de mim daqui por diante?
Se eu sei que tudo em ti é despedida
E que tu andas perto e andas distante.
Devo estar doido, minha flor querida!
O teu olhar deixou-me delirante
E agora o que vai ser da minha vida?
José Antonio Jacob

MÃOS NOS BOLSOS
Noites e noites passo sem dormir,
Ao meu lado a esperança não desperta,
Quando amanhece eu não sei para aonde ir
Abro a janela e a rua está deserta!
Destranco a porta e a deixo ao dia, aberta,
O sol, lá fora, recusa-se a vir;
O que há em mim, de alegre, quer sair,
E o que me deixa triste não liberta.
Quero ir embora: adeus! Saio a tossir,
O vento esbarra em mim sem eu sentir
E a rua espicha-se no meu caminho.
Com as mãos nos meus bolsos sigo adiante,
Nesta cidade grande ando distante,
Depois volto, mais triste e mais sozinho...
José Antonio Jacob

O VIRA LATA
Ele aparece sempre de repente,
Na ruazinha ainda ensolarada,
Esmiuçando o chão à sua frente:
De vez em quando volta e fita o nada.
E logo vai adiante novamente,
Em gesticulação mais animada,
Quando numa caçamba ele pressente
Ter encontrado um mimo na calçada.
Então vira o latão enferrujado
E ali remexe um sujo guardanapo
Que alguém deixou com resto de comida.
Depois, vai removendo, com cuidado,
Pedaço por pedaço do fiapo
De uma migalha que sobrou da vida.
José Antonio Jacob

NA POLTRONA
Eu tenho um sonho ruim que me impressiona
E sinto medo de ir até à janela,
A Voz, que me acompanha e me aprisiona,
Não me consente que eu me afaste dela.
Quer ser a minha esposa e a minha dona
Dizendo-me tristezas de novela...
Vem, pois, minha Senhora: acende a vela!
Há anos que estou morto na poltrona!
Feito um perdido, então, zombo de mim,
Depois, de frente ao espelho, fico mudo,
E tremo, tusso, fumo e bebo vinho...
E de que adianta ficar doido assim,
A rir da minha dor e a rir de tudo,
Se cada vez eu fico mais sozinho?
José Antonio Jacob

HISTÓRIA BOA
“Conte-me uma história boa, a noite é fria!...”
Isto era tão antigo... E, é tão recente...
“Era uma vez...” Então ela sorria
Ao ver meu sono suave e sorridente.
E, no outro dia, à noite, eu repetia:
“Conte-me uma história nova e diferente”
“Era uma vez querido...” E, ela, dizia
A mesma história boa novamente.
“Conte-me uma história boa que ainda é cedo...”
É a velha voz que pela noite ecoa
E, ao mesmo tempo, conta o meu segredo...
“Conte-me uma história...” A minha voz entoa,
“Estou sozinho e sinto tanto medo
De ter chegado ao fim da história boa...”
José Antonio Jacob

O VENDEDOR DE BONEQUINHOS
De manhãzinha, à beira da calçada,
Todo dia uma corda eu estendia,
E pendurava nela uma braçada,
De bonequinhos feios que eu vendia.
Eram polichinelos que eu fazia,
De trança de algodão, mal desfiada...
No pano das feições não conseguia
Puxar-lhes traços de melhor fachada.
Ao desbotar o azul, no fim do dia,
Quando eu os desatava dos alinhos
Desse varal de cordeação brilhante,
Esses desengonçados bonequinhos,
Desciam-me nas mãos, com alegria,
E me davam abraços de barbante!
José Antonio Jacob
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